sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Eu não sabia que era moldura

 

Sobre uma perda que não me ensinou nada, mas deixou uma janela aberta

Durante anos, construí uma vida e não percebi que tinha construído junto um jeito de enxergar. O trabalho, a rotina, a imagem que os outros tinham de mim: tudo isso funcionava como uma moldura. Dentro dela cabia muita coisa. Fora dela, eu quase nunca olhava.

Aí a moldura caiu.

A primeira coisa que senti não foi descoberta nenhuma. Foi desorientação mesmo. Faltava chão, faltava roteiro, faltava até a pergunta certa. Quem diz que toda crise é oportunidade nunca ficou olhando o teto às quatro da manhã, como eu fiquei.

Então vou ser clara: aquilo não foi um presente. Não devo gratidão ao que doeu. E desconfio de quem pede isso, porque geralmente está com pressa de que a gente pare de incomodar.

Mas aconteceu uma coisa que, com o tempo, não consegui ignorar.

Freud chamou o luto de trabalho, e a palavra é exata. Dá trabalho. Precisei revisitar cada lembrança, cada plano, cada expectativa ligada ao que eu tinha perdido, e ir desfazendo o laço aos poucos. Foi lento, repetitivo, cansativo. Eu, que escuto isso de tanta gente, descobri na pele o que significa "no seu tempo".

E quando um laço se desfez de verdade, a energia que estava presa nele ficou solta. Não na hora, e não de graça. Mas ficou.

Foi então que apareceu algo que antes não tinha onde morar. Uma vontade, um jeito de ocupar o tempo, uma coisa de mim que nunca tinha pedido licença porque não havia espaço na moldura. Não estava escondida. Simplesmente não cabia.

Isso não foi automático. Houve um período em que tentei refazer tudo igualzinho, o mais rápido possível, a mesma vida com outro endereço. Era medo, e compreendo. Mas esse movimento quase fechou a janela antes de eu espiar o que havia lá fora. E houve semanas em que eu só consegui sobreviver, e tudo bem. A janela ficou para depois.

O que fez diferença foi ter tempo e ter alguém. Tempo para não preencher o vazio com a primeira coisa que aparecesse. E alguém que me ouviu sem apressar a conclusão e sem embrulhar a dor em frase de efeito.

Se você está no meio de uma queda agora, não precisa extrair sentido dela hoje. Esse não é o seu trabalho esta semana. Mas talvez valha deixar uma pergunta aberta, sem cobrança, como eu deixei:

O que eu estou começando a ver agora que, antes, eu não tinha como ver?

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